segunda-feira, dezembro 01, 2008

Assim falou Zaratrusta

Eu só amo aqueles que sabem viver
como que se extinguindo, porque são
esses os que atravessam de um para
outro lado.
Amo aqueles de grande desprezo,
porque são os grandes adoradores, as
setas do desejo ansiosas pela outra
margem.
Amo os que não procuram por detrás
das estrelas uma razão para sucumbir e
oferecer−se em sacrifício, mas se
sacrificam pela terra, para que a terra
pertença um dia ao Super−homem.
Amo o que vive para conhecer, e que
quer conhecer, para que um dia viva o
Super−homem, porque assim quer ele
sucumbir.
Amo o que trabalha e inventa, a fim de
exigir uma morada ao Super−homem e
preparar para ele a terra, os animais e
as plantas, porque assim quer o seu fim.
Amo o que ama a sua virtude, porque a
virtude é vontade de extinção e uma
seta do desejo.
Amo o que não reserva para si uma
gota do seu espírito, mas que quer ser
inteiramente o espírito da sua virtude,
porque assim atravessa a ponte como
espírito.
Amo o que faz da sua virtude a sua
tendência e o seu destino, pois assim,
por sua virtude, quererá viver ainda e
não viver mais.
Amo o que não quer ter demasiadas
virtudes. Uma virtude é mais virtude do
que duas, porque é mais um nó a que
se ata o destino.
Amo o que prodigaliza a sua alma, o
que não quer receber agradecimentos
nem restitui, porque dá sempre e não
quer se poupar.
Amo o que se envergonha de ver cair o
dado a seu favor e, por essa razão, se
pergunta: "Serei um jogador
fraudulento?", porque quer ir ao fundo.
Amo o que solta palavras de ouro
perante as suas obras e cumpre semprecom usura o que promete, porque quer
perecer.
Amo o que justifica os vindouros e
redime os passados, porque quer que o
combatam os presentes. Amo aquele
cuja alma é profunda, mesmo na dor, e
pois a cólera do seu Deus o confundirá.
Amo aquele cuja alma é profunda,
mesmo na ferida, e ao que pode
aniquilar um leve acidente, porque
assim de bom grado passará a ponte.
Amo aquele cuja alma transborda, a
ponto de se esquecer de si mesmo e
quanto esteja nele, porque assim todas
as coisas se farão para sua ruína.
Amo o que tem o espírito e o coração
livres, porque assim a sua cabeça
apenas serve de entranhas ao seu
coração, mas o seu coração o leva a
sucumbir.
Amo todos os que são como gotas
pesadas que caem uma a uma da
nuvem escura suspensa sobre os
homens, anunciam o relâmpago
próximo e desaparecem como
anunciadores.

Nenhum comentário: